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o monopólio dos āsanas & o desperdício do (re)conhecimento

  • Foto do escritor: Admin
    Admin
  • 31 de out. de 2023
  • 4 min de leitura

Atualizado: 29 de jul.

é bem verdade que eu sou uma entusiasta dos āsanas, do movimento e das técnicas do corpo. mas gostaria de estrear esse espaço de escrita falando sobre aquilo que, por trás do que se vê, estrutura e sustenta a prática. aquilo que está (ou deveria estar) no íntimo, na raiz de toda prática de yoga.

não é novidade que o yoga moderno se firmou na prática postural em detrimento dos estudos filosóficos e até mesmo de outras práticas como a meditação e o pr

ānāyāma.

colocar o corpo em movimento é algo maravilhoso. são incontáveis os benefícios para a saúde, como a ciência mostra e como quem pratica qualquer atividade física regularmente sabe: não são só benefícios para o corpo, mas também para a qualidade e saúde da mente.

além disso, o que o yoga e outras abordagens (como por exemplo a medicina chinesa) também nos ensinam é que mover, apertar, alongar, torcer o corpo faz movimentar uma energia vital - prāna, qi, chi - que mora no corpo, permitindo que essa energia, esse impulso de vida possa fluir livremente.

prāna está intimamente relacionado com a respiração (sendo muitas vezes inclusive traduzido dessa forma) e quando olhamos para a história do yoga, encontramos que na índia pré-moderna, muito antes desse monopólio das posturas que hoje praticamos nos estúdios de yoga, a prática física era focada majoritariamente no trabalho e controle respiratório. (fonte: James Mallinson, Roots of Yoga)

o prānāyāma (prāna: energia vital/vida/respiração + āyāma: controle) era tido como a prática mais importante justamente pela compreensão do yoga sobre o papel que o prāna exerce no corpo, na mente, e nos estados da consciência (mas isso é assunto pra um outro texto).

os textos haṭhayogis, como a haṭhayoga pradīpikā, gheraṇḍa saṃhitā, gorakṣaśataka, se ocuparam de descrever práticas físicas (āsanas, prānāyāmas, bandhas, mudras) que atuam não só na manutenção da saúde física e mental, mas que também trabalham em trazer a superfície questões profundas que estavam guardadas, memórias do corpo.

mas quando essas memórias emergem, revelando padrões de reação (saṃskāra) em forma de raiva, apego, culpa, frustração, se você não tem algo que te guie e te sustente eticamente, então o grande objetivo da sua prática de yoga pode estar sendo desperdiçado.


é preciso lembrar que saúde e bem estar são importantes para o yoga não para que você consiga render mais no trabalho, ou cumprir com uma agenda lotada de demandas, ou para desestressar no fim do dia - ainda que praticar āsanas efetivamente ajude nisso - muito menos para acessar uma positividade tóxica, mas sim para que possa alcançar sthiti, estabilidade da mente. por isso patañjali, no primeiro capítulo de seu yogaśāstra vai apontar a doença/mal-estar do corpo (vyādhi) como o primeiro de 9 obstáculos que o praticante enfrenta no percurso para conquistar uma mente estável. e alcançar a estabilidade da mente é o caminho que o yoga propõe para ir de encontro ao seu objetivo: a liberdade, ou mokṣa. a liberdade que surge quando a consciência desperta (buddha).

o que eu quero dizer é que existe algo, existe um objetivo do praticante de yoga que deve almejar ultrapassar esse bem estar momentâneo. existe algo que o yoga quer tocar que é da ordem de uma ética da vida. uma ética da generosidade, do cuidado e da confiança.

o yoga, assim como o budismo, está interessado em compreender e encontrar vias de minimizar o sofrimento até a sua total extinção. mas para alcançar esse entendimento, além de um corpo disponível e uma mente estável, é necessário ter acesso à filosofia, acesso ao conhecimento, uma disposição genuína em reconhecer os próprios padrões de sofrimento, é necessário confiança no processo e muito auto estudo (svādhyāya). e essa é provavelmente a parte mais difícil do yoga para muitas pessoas.

a prática de āsanas é realmente maravilhosa, uma postura de yoga pode te tornar mais flexível, menos estressade, mais forte e talvez até mais paciente. mas o āsana em si, se não for feito com intenção de libertar, não vai te levar ao estado de yoga.

buddha nada mais é do que o nome que se dá a pessoa que despertou para o entendimento de que todos os fenômenos são impermanentes e vazios por natureza e que todos os seres e acontecimentos estão interligados. uma consciência desperta torna-se livre (mukti) dos condicionamentos mentais que são a causa do sofrimento mundano.

reconhecer esse estado interno de buddha - que é o estado natural da nossa consciência, quando não está nublada pelo sofrimento (spoiler: sofrimento que nós mesmes estamos produzindo, dia após dia, quando agimos sem buscar entender sobre o resultado das nossas ações) - é, enfim, o que o yoga propõe.

então, encontre um bom professor, que esteja comprometido com a prática e que possa te ensinar sobre āsanas e técnicas de forma segura. mas também, por favor, encontre um professor que possa te ensinar sobre generosidade, amor, confiança e liberdade.

não desperdice a oportunidade de compreender, transformar e (re)conhecer-se livre nessa vida.

imagem: L'acrobate (The Acrobat) | Pablo Picasso, 1930

amor, jô



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